O AMOR DE DEUS

O AMOR DE DEUS

Todo ser humano sente necessidade de ser amado. Isso faz parte da busca natural do homem. Passamos a vida atrás de “um grande amor”. Pois cremos que um grande amor, realizará o maior de todos os nossos sonhos: Nos fará Feliz! É buscando a felicidade que fazemos cada movimento, cada investimento em nossa vida. Cada conquista que fazemos tem como fim último alcançar a felicidade. Porém nada do que conquistamos nesta terra pode nos proporciona-la, é insuficiente. Ainda que conquistássemos o mundo inteiro, não a teríamos. Pois essa necessidade, esse vazio que há no nosso coração é infinito e não pode ser preenchido por coisas finitas. Na verdade esse vazio é uma necessidade de Deus, um desejo de Deus. Só ele é o “algo infinito” que pode preencher nosso infinito. A esse respeito já dizia Santo Agostinho: “Fizeste-nos Senhor para Ti e inquieto estará o nosso coração enquanto não repousar em Ti”. Provavelmente já nos deparamos com uma saudade inexplicável, uma tristeza ao entardecer, uma fome “sei lá do quê”, tudo isso é saudades de Deus. No final toda busca que o homem faz é uma busca de Deus.

Nascemos para amar e ser amados. Quando não realizamos essa essência, somos desfigurados, somos incompletos, frustrados. Com base em que podemos afirmar isso? Costumamos usar o ditado popular: “filho de peixe, peixinho é” para afirmarmos que herdamos as principais características daqueles que nos trouxeram ao mundo ou nos instruíram: pais, professores, instrutores… Fomos criados a imagem e semelhança daquele que é puro AMOR (cf. Gn 1, 26). Sendo assim, não poderíamos herdar dele outra característica senão essa: o Amor.

São João nos faz uma preciosa revelação: Deus é Amor (Cf. Jo 4, 16). Uma grande descoberta que para nós se tornou algo “comum”. Vemo-la expressa em placas, para-choques de caminhões e a escutamos com frequência e de uma forma tão mecânica, que não nos aprofundamos mais no grande sentido que ela tem. Mas para os interlocutores de São João, que concebiam Deus como um castigador, o Senhor dos exércitos que vinga o pecado dos pais nos filhos até a décima geração, um Deus idealizado no Antigo Testamento, e tinham com esse Deus uma relação mercenária, essa era a maior de todas as novidades: A essência de Deus é AMOR. Isso implica dizer que se Ele deixasse de amar, deixaria de ser Deus.

A essa altura poderíamos nos perguntar: Mas o que é o amor? Precisamos primeiramente entender que o amor genuíno vem sempre de Deus, por que Ele é autor e mestre, “Ele não se deixa vencer em misericórdia”. O Amor é uma atitude, impulsionada ou não por sentimento, que envolve sempre: sair de si para buscar o bem do outro, para fazê-lo feliz, ele seja merecedor ou não. Tem sempre a ver com esvaziar-se de si para beneficiar o outro. Essa é sempre a postura de Deus em relação ao ser humano. Deus torna-se pequeno para podermos alcança-lo, pois sabe que sem Ele não seriamos felizes, pereceríamos. É como um pai brincando com seu bebê, a sua alegria é ver a alegria do seu filho. E para isso ele não se incomoda de, por exemplo, repetidas vezes fazer uma mesma brincadeira, pois embora seja monótono para ele, isso é capaz de arrancar boas risadas do seu filho e isso lhe faz feliz.

Deus é todo amor. E se acabamos de meditar que o Amor necessariamente precisa de um “alvo” para se doar, quem seria o alvo de todo esse amor de Deus? A quem ele é direcionado? São João também descobriu isso e por isso mesmo, no seu evangelho, se auto intitula “o discípulo amado”. O alvo de todo esse amor é o homem, desde sempre é ele. Por isso Deus o criou com tanto carinho e perfeição. E não entendamos como um amor generalizado: “Deus ama qualquer um!” Não. Ele ama a cada um de forma particular. Deus “me” ama. Existe uma dinâmica que retrata muito bem esse conceito: confecciona-se no chão um grande coração feito de flores naturais e ao centro desse coração é preparado um trono. Aquele coração representa o coração de Deus. E para quem foi preparado aquele trono senão para mim? Cada um de nós pode afirmar: “Eu estou no centro do coração de Deus, esse trono, preparado com tanto carinho, foi preparado para mim”. Quando estamos apaixonados por alguém, costumamos dizer que nosso coração é dela. Deus com toda certeza, pode dizer isso a nós em relação ao seu coração. E como todo apaixonado ele lembra continuamente do seu amado, faz declarações de amor, presenteia, “cerca de carinho e proteção” (Cf. Sl 125, 2).

O Livro do profeta Isaías nos mostra uma dessas grandes declarações de Amor que Deus faz a seu amado: “E agora eis o que diz o Senhor, aquele que te criou Jacó, e te formou, Israel: Nada temas, pois Eu te resgato, Eu te chamo pelo nome, és Meu. Se tiveres de atravessar a água, estarei contigo. E os rios não te submergirão; se caminhares pelo fogo, não te queimarás, e a chama não te consumirá. Pois Eu Sou o Senhor, teu Deus, o Santo de Israel, teu Salvador. Dou o Egito por teu resgate, a Etiópia e Sabá em compensação. Porque és precioso a Meus olhos, porque Eu te aprecio e te amo, permuto reinos por ti, entrego nações em troca de ti” (Is 43, 1-4).

Neste trecho da Sagrada Escritura, além de afirmar com letras garrafais o “te amo” o Senhor também usa outro termo muito belo: “és precioso”. Assim pode-se entender qual o nosso verdadeiro valor, somos “preciosos”, afinal Deus é capaz de trocar reinos por cada um de nós. E quão grande zelo Ele aplica nos cuidados para conosco, pois até nós guardamos com todo afinco aquilo que é precioso a nós. Uma vez ouvi um homem dizer que sua aliança matrimonial havia caído por acidente num vaso sanitário, após o uso. Ele não podia dar a descarga, pois perderia o anel, ele então mergulhou sua mão no meio da podridão para resgatar aquilo que era valioso para ele. Pois tinha não apenas um valor monetário, mas também afetivo. Somos tão preciosos para o Senhor que Ele não só mergulhou a mão, mas a si todo na sujeira do nosso pecado, das nossas mazelas, dos nossos sofrimentos, para nos resgatar, para nos salvar.

ALGUMAS CARACTERISTICAS DO AMOR DE DEUS

Se lançarmos um olhar atento para nossa própria historia seremos capazes de reconhecer muitos sinais concretos do Amor de Deus em nossa vida, muitas interferências de Deus em nosso favor. Isso se torna mais fácil se conhecemos algumas características do seu amor.

1 – ETERNO

“De longe me aparecia o Senhor: Amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor.” (Cf Jr 31, 3)

Quando pensamos no significado de eterno temos a tendência em pensar algo que nunca terá fim, mas isso seria apenas a metade da definição. Na verdade Eterno, é algo que nunca teve começo, e nunca terá fim. Existe desde sempre e para sempre. Não é uma medida humana, pois o “para sempre” dos homens acaba com a morte. O de Deus é transcendente. Em suma, dizer que o amor de Deus é eterno é dizer que Deus amou a mim e a você desde sempre, mesmo antes da fundação do mundo ele já sonhava com o dia que lhe chamaria a vida. Ele desejou o homem desde de toda a eternidade. E o escolheu para sempre. Por toda a eternidade Ele nos quer. Podemos nos firmar na máxima de Santo Afonso Maria de Ligório: “Desde de que Deus é Deus, Ele ama o homem”.

2 – INCOMENSURÁVEL

A segunda característica nos aponta que o amor de Deus é sem medidas, não tem comparativos ou limites. Nos ama mais que tudo que existe ou existirá. Certo dia escutei uma estória que retrata muito bem a nossa relação com esse amor incomensurável: Um garoto perguntou ao seu Pai qual o tamanho do Amor de Deus. Então ao olhar para o céu o pai avistou um avião e perguntou ao seu filho: “Que tamanho tem aquele avião?”. O menino disse: “Pequeno, quase não dá pra ver”. Então o pai o levou a um aeroporto e ao chegar próximo de um avião perguntou ao garoto: “E agora, qual o tamanho desse?”. O menino respondeu: “Nossa pai, esse é enorme!”. O pai então disse: “Assim é o Amor de Deus: O tamanho que você o verá vai depender da distância que você estiver dele.”

3- MISERICORDIOSO

Muitas vezes corremos o risco de querer comparar o Amor de Deus a amores humanos, o que é um erro. Os amores humanos em sua maioria amam em vista de uma compensação ou por causa de um merecimento. Amo porque a pessoa me ama, porque sou correspondido, ou porque fez algo por mim. Da parte de Deus é totalmente diferente. É um amor ofertado gratuitamente, sem precisar de motivos ou merecimentos. Ele não é um prêmio, onde só os “bons” o conquistam, ele é um dom, um presente que o Senhor dá a todos os seus filhos. É isso que Jesus vem nos ensinar quando afirma: “Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons e faz chover sobre os justo e sobre os injustos.” (Cf. Mt 5,45). Podemos afirmar sem medo, que Deus ama com a mesma intensidade o homem mais santo e bondoso desse mundo e o mais perverso e pecador.

Misericórdia é sinônimo de compaixão, de sofrer junto, de tomar as dores para si. Deus nos olha, vê nossa miséria, nosso pecado e ao invés de encher-se de cólera, enche-se de doçura e compaixão. Vendo que não podemos sobreviver sem Ele, vem ao nosso encontro e, nos toma, miseráveis e pecadores, e nos coloca dentro do seu coração amoroso. Isso nos leva a entender que Deus não nos ama “apesar da nossa pequenez”, Ele nos ama “por causa da nossa pequenez”. Por isso o mundo jamais poderá ferir mais uma pessoa do que Deus poderá amá-la. Não há pecado que Deus não possa perdoar. Como nos diz o Papa Francisco: “Deus nunca cansa de nos perdoar, nós é que cansamos de pedir perdão.”

4- ZELOSO

Quando estamos apaixonados por alguém, essa pessoa toma o centro dos nossos pensamentos e sentimentos, tudo nos lembra ela, os cheiros, as músicas… Assim é Deus, um completo apaixonado, não há um momento sequer que Ele não esteja pensando no amor da sua vida: o homem. “Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas.” (IS 49,16)

Quem ama dessa forma, com um olhar tão atento tem sempre em vista as necessidades do amado, por isso cuida, protege, guarda, nunca o esquece. Por isso nos falou Deus pela boca do Profeta: “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, Eu não te esqueceria nunca.” (Is 49, 15)

 É próprio do amor zeloso se antecipar, vemos isso na alegoria da criação feito no livro do Gênesis: a ordem dos seis dias expressa o cuidado que Deus teve em preparar o mundo, para quando o homem, a mais perfeita e bela de todas as criaturas, chegasse. Para que tudo estivesse pronto para acolhê-lo, para atender suas necessidades. É isso que fazemos quando vamos receber alguém que amamos em nossa casa, com amor e zelo preparamos um lugar confortável, um cardápio que atenda seus gostos, assim também é Deus para conosco.

Mais os apaixonados para expressar seu zelo tem o prazer de ir além da necessidade ou da “obrigação” para agradar a pessoa amada. Por isso os namorados ao se presentearem não se conformam em dar um “ursinho de pelúcia”, precisa ser um “ursão”. Uma flor apenas é insuficiente, há a necessidade de ser um ramalhete, se for possível o mais belo da banca. Deus também em vista de nos agradar nos dá muito além do necessário, enche nossa vida com gestos de carinho, com surpresas e com presentes, com imensas declarações de amor. Porque, quem mais seria, senão Deus, que em um dia triste para nós, inspira nosso vizinho a colocar aquela música que alegra nosso coração? Que num dia comum e sem motivos nos surpreende ao nos presentear por alguém com aquela comida que gostamos? Que num dia cansativo nos dá aquela “mãozinha” através de um amigo? Deus não cansa de delicadamente nos envolver com seus gestos de carinho e amor.

5- FIEL

Devemos ter ciência de que tudo que meditamos sobre o Amor de Deus até agora é algo perene, constante, imutável. Afinal já vimos que seja eu, justo ou ímpio o Senhor continuará a me amar de forma abundante, não é a minha fidelidade ou infidelidade que definirá sua forma de me amar. Deus jamais nos amará mais ou menos do que nos ama agora, pois no agora já nos ama de forma plena, e sempre nos amou em plenitude. Por isso sejamos fieis ou não, Ele permanecerá a nos amar e cumprir suas promessas. Quando somos infiéis, Ele permanece fiel. (Cf II Tm 2, 13b).

Então podemos entender que independente do que esteja acontecendo na minha vida, Deus estará me amando, cuidando, protegendo. Se a dor e o sofrimento batem em nossa porta eles não são um sinal que Deus nos abandonou. Ele nunca nos abandona. Mas há coisas que são inerentes à condição humana e reclamar delas seria como reclamar porque as unhas crescem e temos que cortar, ou porque envelhecemos e nosso corpo sofre limitações. No entanto é importante sabermos que qualquer que seja a condição que estejamos Deus continua a nos amar e quando não pode intervir sofre conosco, chora conosco. Mas também se alegra conosco e vibra conosco com nossas conquistas. Esse conceito está bem expresso naquela famosa estória “Pegadas na Areia”:

Uma noite eu tive um sonho… Sonhei que estava andando na praia com o Senhor e através do céu, passavam cenas da minha vida. Para cada cena que passava, percebi que eram deixados dois pares de pegadas na areia: um era meu e o outro era do Senhor. Quando a última cena passou diante de nós, olhei para trás, para as pegadas na areia e notei que muitas vezes, no caminho da minha vida, havia apenas um par de pegadas na areia. Notei também que isso aconteceu nos momentos mais difíceis e angustiosos do meu viver. Isso me aborreceu deveras e perguntei então ao Senhor:

– Senhor, Tu me disseste que, uma vez que resolvi te seguir, Tu andarias sempre comigo, em todo o caminho. Contudo, notei que durante as maiores tribulações do meu viver, havia apenas um par de pegadas na areia. Não compreendo porque nas horas em que eu mais necessitava de Ti, Tu me deixaste sozinho.

O Senhor me respondeu: “Meu querido filho. Jamais eu te deixaria nas horas de provas e de sofrimento. Quando viste, na areia, apenas um par de pegadas, eram as minhas. Foi exatamente aí que eu te carreguei nos braços”.

Independente do que aconteça Deus está nos amando, Ele é fiel! Essa é nossa certeza, nossa segurança.

6- PESSOAL

Uma perspectiva que nos fará progredir bastante no entendimento e acolhida desse Amor é entender que Deus não ama de forma generalizada. Deus ama de forma pessoal.  Geralmente tendemos a desvalorizar o que é “comum”, “público”, ”de todos” e se tivermos esse tipo de concepção para com o Amor de Deus acharemos que somos apenas “mais um” no seu caderninho de amores, e isso seria uma inverdade. Devemos entender que o amor de Deus é para todos, mas atinge cada um de forma particular. Ele me ama, me assume e se manifesta a mim de acordo com aquilo que sou: minha identidade, minha sexualidade, meu temperamento, minha personalidade, minha história de vida…

A prova disso é que ele me fez único. A própria ciência pode constatar isso, nosso DNA é único. Mesmo que eu tenha um irmão gêmeo idêntico, não seremos cópia um do outro, cada um é único. Pois Deus dedicou todo o seu carinho e criatividade ao me criar, por isso o corpo humano é essa “maquina perfeitíssima”. E se ele que pertence ao mundo visível é assim, o que se dirá da alma que pertence ao mundo invisível.

Ficamos tão mais felizes quando recebemos um presente personalizado, ou melhor, ainda, um presente manual. Sentimos que a pessoa dedicou tempo e criatividade por nos amar, quis dá o melhor e principalmente o melhor de “si”. Por isso devemos nos alegrar com esse Amor de Deus que é pessoal. Porque com todo carinho prepara cada ação para conosco de forma pessoal pensando em cada detalhe, levando em consideração aquilo que somos e temos.

Quando era criança, recebi a noticia que ganharia um irmãozinho, minha mãe estava gravida. Diante dessa notícia os adultos ficavam brincando comigo dizendo que eu ficaria “no canto”, uma brincadeira comum em minha região. Porque a mãe, não deixará de amar a todos os filhos, mas naturalmente terá que dedicar mais do seu tempo e de suas forças com o bebê que virá ou com um filho que está doente. Deus ao contrário não tem limitações humanas de tempo, espaço, cansaço… Ele está sempre voltado com todas as forças e atenção para cada um de seus filhos pessoalmente. Ninguém tomará meu lugar no coração de Deus, pois se sou único, Ele também me ama de uma forma única.

PERMITA-SE SER ALVO DESSE AMOR

Precisamos perceber as manifestações desse Amor que se dão de forma concreta em nossa vida. Encontra-las é fazer uma experiência pessoal com o Amor de Deus, é conhecer o Senhor não pelo que ouvimos falar, mas pelo que nossos olhos viram. (Cf. Jo 4, 42)

Uma vez que o encontramos devemos deixar que ele transforme nossa vida, nosso jeito de pensar, nossos sentimentos, nossa forma de ver o mundo. Pois é impossível descobrir-se amado desta tal forma e ser o mesmo. Saber que eu tenho um valor incalculável, que não sou “qualquer um”. Não posso mais me entregar a qualquer situação, pois ninguém usa objeto precioso pra serviços ordinários. Olhemos para nossa própria vida pela ótica de Deus. Sou amado! Um amor que preenche todos os recônditos do nosso ser.

“O Meu amado fitou-me nos olhos,

viu em mim uma beleza que eu não julgava ter,

Fez-me apaixonar sem perceber

E ver que só junto dele serei feliz”

Francisco Edson do Carmo Filho

Consagrado da Comunidade Católica Rainha da Paz

Edson Filho

Consagrado da Comunidade Católica Rainha da Paz

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