SOMOS TODOS CHAMADOS A SANTIDADE

Aos treze anos fiz meu primeiro Seminário de Vida no Espírito Santo e como sempre gostei da leitura, logo me interessei pela vida dos santos. Aos dezessete anos iniciei um trabalho na Biblioteca Paroquial. Cuidava dos livros organizando e registrando os livros que saiam e retornavam. Para mim era um grande banquete estar entre tantos livros católicos. E os meus preferidos eram os que narravam à vida dos santos. Eles passaram a ser meus grandes amigos no Céu.
Passando os anos, veio à fase mais madura de minha vida, aquela onde Deus nos tira o doce de tudo e precisamos buscá-lo não por seus consolos, mas porque o amamos. Neste período sem fim pude entender mais profundamente como os santos eram humanos como nós. Suas dores, lutas, quedas e soerguimentos. Logo me dei conta, de que o que nos difere dos santos é o fato deles sentirem-se amados por Deus a tal ponto de desejar com todo o coração retribuir este amor não importa se em gestos grandes ou pequenos, pois cada ação para Deus tem o tamanho do amor que nela colocamos. Porém, saber e sentir o quanto Deus nos ama, vai sempre depender do grau da nossa intimidade com Ele, do nosso encontro pessoal com Deus. Essa certeza do Seu amor por nós funciona como uma âncora no porto seguro, que não deixa nossa barquinha navegar por mares duvidosos. Essa certeza do Seu amor provada em nosso íntimo nos leva a como a amada dos Cânticos dos Cânticos, a enfrentar a noite tenebrosa, passar por feras e enfrentá-las sem temor, pois a força que nos conduz é como a paixão, nada detém. O objetivo do santo é amar Aquele que mais o ama. E este é o seu objetivo: Fazer o amor de suas vidas amado e feliz!
Ser santo para o cristão não deveria parecer algo impossível embora exija lutas. Isso porque no nosso Batismo nos tornamos filhos de Deus. E Deus é Santo: “Sede santos porque eu, o Senhor vosso Deus sou Santo.” – Lev 19,2. Logo, se em Cristo nos tornamos seus filhos, somos também coerdeiros da Graça. Com o pecado, o homem perdeu a graça que Deus lhe concedera, mas Cristo com seu amor incondicional ao Pai e a nós e em sua obediência rasgou o véu que nos separava. Recuperou a conexão que perdemos com o Pai. Isso nos dá a possibilidade de nos aproximarmos Dele sem medo, como um filho amado se aproxima do pai, pula em seu colo e lhe enche de cheiros. Entretanto o Inimigo de Deus e nosso, tudo fará para nos afastar dessa graça, fazendo com que a santidade pareça um ato impossível para nós! Satanás nos mergulha em nossas misérias como num mar de lama e deixa secar toda a sujeira em nós. Depois nos mergulha de novo até que pareçamos desfigurados e nada parecidos com o Pai do Céu. Ao olhar para nós e nos vermos tão feios e fétidos, pensamos que Deus não poderá nos querer jamais. Que estamos tão sujos que será impossível limpar tudo aquilo. Que não parecemos mais com Deus.
Como voltar a andar de mãos dadas com Deus se Ele se quer deve querer nos olhar por causa de nossa sujeira? Sim, a sujeira está lá, mas por baixo dela está, embora desfigurada, a imagem do Pai. E quando ele nos olha, como uma mãe que vê seu filho cair na lama, sua primeira atitude é banhar, limpar, lavar e depois vestir a veste limpa e perfumada. É isso que Deus deseja de nós.
Pensamos que para sermos santos, precisamos fazer coisas extraordinárias. Isso não é verdade. Sim. Alguns santos fizeram coisas extraordinárias, mas como fruto das coisas simples realizadas com um amor e um fervor não comum para quem está distante de Deus. Os santos são exemplos de vida para nós, mas cada um foi santo na sua característica própria e na sua individualidade porque é assim que Deus nos olha, como únicos para Ele, com nossas características próprias que nos definem como indivíduos. Não importa que características sejam essas. Elas são matéria-prima sob a ação do Espírito Santo.
Se observarmos a dinâmica da vida dos santos, nenhum era igual ao outro em tudo. Tinham temperamentos diferentes, idades diferentes, classes sociais diferentes… Mas com certeza, enfrentavam dificuldades ordinárias comuns a todos os seres humanos. Existiram santos que precisaram dominar seu temperamento zangado e lutaram anos a fio por isso. São Jerônimo foi assim. Não media as palavras e era profundamente intolerante. São Francisco Sales lutou para controlar o seu temperamento por dezenove anos. Ele mesmo aconselhava “Se sois como o salmista, prontos a gritar ‘ Os meus olhos são consumidos pela raiva’, ide em frente e dizei: ‘Tem piedade de mim, Senhor para que Deus possa estender a Sua mão direita e controlar a vossa ira”. Outros ainda foram pessimistas ou mesmo sanguíneos por demais. Isso nos mostra o quanto foram humanos, mas com um amor a Deus que lhes saltava nos poros.
Ser santo não é um privilégio de poucos, mas um chamado, uma ordem de Deus. Um chamado independente da sua realidade pessoal. Seja criança como Domingos Sávio que preferia morrer a ferir o coração de Deus. De seus lábios brotava a simplicidade do que é ser santo: “Não posso fazer grandes coisas, mas quero que tudo o que faço mesmo a menor das coisas, seja pra a maior glória de Deus.” – Ou ainda José Luiz Sánchez Del Rio que aos 14 anos foi torturado para negar a sua fé, mas com a sola dos pés cortada e sendo obrigado a andar assim, gritava no meio das ruas: “Viva Cristo Rei! Viva a Virgem de Guadalupe!”. Os pais de Sanchez aceitaram pagar o resgate de sua vida, mas ele não aceitou. Disse já ter oferecido a sua vida a Deus e que a sua fé não estava à venda.
Temos santos que sofreram com o câncer como Chiara Luce, diagnosticada aos 17 anos com câncer, santos que se negaram a abortar escolhendo a vida do seu bebê como Gianna Beretta Molla. Santos casados e solteiros, idosos e adolescentes… Santos em todas as épocas e estilos de vida, porque o Espírito Santo sopra onde quer e como quer. Alfaiate: São Geraldo Majela; Advogado: Santo Afonso Maria de Ligório; Professor Universitário, filósofo, psicólogo, biólogo e naturalista: São Alberto Magno; Médico: São Brás; Comerciante: Santa Lídia; Pescador: São Pedro; Lavrador: Santo Isidoro; Surfista, médico e seminarista: Bem Aventurado Guido Vidal (Brasileiro); Saúde frágil: Santa Bernadete Soubirous, Jacinta Marto e Francisco Marto; Santos Analfabetos ou com dificuldades no aprendizado: Santa Rita de Cássia, Santa Catarina de Sena, São João Maria Vianney… A grande diferença entre nós e estes santos, é que eles escolheram fazer o bem e buscaram viver na graça de Deus, fugiram das ocasiões de pecado, travaram uma luta diária e contaram com a força de Deus. Ele conhece as nossas dificuldades. Qual o pai ou a mãe que vê seus filhinhos impotentes diante de alguma dificuldade e não os socorre? Se está difícil para nós sermos santos, Deus vem em nosso auxílio através do seu Espírito Santo. Clamemos a sua ajuda a cada dia. Deus vem em nosso auxílio não importando a nossa fragilidade, basta que busquemos a sua presença. Para isso temos os sacramentos, de modo especial o Sacramento da Reconciliação e a Santa Eucaristia, o Alimento para as almas frágeis. Temos a Virgem Maria como intercessora e sabemos por meio dos nossos irmãos mais velhos, os santos, que não pode se perder aquele que se recomenda a Maria. E não importa se você leva uma vida simples, Deus se esconde entre panelas e vassouras também.
Eu poderia dizer muitas coisas agora, citar trechos bíblicos e grandes teólogos, mas penso que uma coisa apenas é importante para sermos santos (claro, além de conhecer a Palavra de Deus e nos fortalecermos nos Sacramentos e na vida comunitária): O Amor é a resposta para tudo! Amemos e façamos tudo pela via do amor. Não com o nosso amor humano e cheio de limites, mas com o amor que brota da Fonte verdadeira, Cristo crucificado e apaixonado por nós! Nele encontraremos a força e o impulso necessário para sermos o que na essência já somos.
Em Cristo crucificado saberemos renunciar nossos desejos baixos, nossa ganância pelo ter e pelo poder. Olhando para Aquele que nos olha, com nosso olhar mergulhado no seu, nos encontraremos com a verdade sobre Ele e sobre nós, e como diz Santa Teresinha do Menino Jesus, “Ele nos dará suas asas de águia para alçarmos o livre voo dos filhos de Deus.”
“Procurai a paz com todos e a santidade, sem a qual ninguém verá a Deus.” (Heb 12,14)

Maria Adelaide dos Santos